COISAS DE NATASHA IV

 

A Campanha de Vacinação contra o vírus H1N1termina amanhã, 21/05 – ouvi a chamada no jornal matutino da TV – aqueles que têm entre 30 e 39 anos devem se dirigir a um posto de saúde e se vacinar.

 

Pânico. Puro pânico me assaltou naquela hora. Eu fazia parte do grupo de risco! Eu tinha a %@#&*$# de 35 anos!

Olhei pra cama e vi o Pedro me encarando, com aquele olhar que dá vontade de mergulhar e lá ficar... havia um quê de riso na expressão dele, como se soubesse que eu estava fazendo planos para pegar o primeiro vôo para Timbuktu e só voltar depois do dia 21/05.

- Eu já tomei a vacina. É rapidinho. – Ele me disse com a voz sonolenta.

- Sei – respondi.

- Você ainda não tomou. Vai hoje? – Ele me perguntou, já se levantando para tomar banho e se arrumar para ir à faculdade.

- Ã- hã – as palavras não eram o meu forte essa manhã... do banheiro ele gritou – posso ir com você. Chego mais tarde na facul. Não tem pró.

É lindinho ele. Tão carinhoso e preocupado comigo... e não fez chacota quanto ao meu pânico. Será que ele existe mesmo? Natasha você deve estar vivendo num daqueles mundos que você cria em sua mente. Não existe homem como o Pedro na vida real. Não. Isso só pode ser devaneio seu.

Fui ao banheiro fazer a checagem. E lá estava ele no esplendor da sua juventude, exalando confiança por todos os poros. Quando me viu, fechou o chuveiro, abriu a portinha do Blindex e esticou o braço me puxando para ele e me tacando um baita beijo molhado. Bem coladinho ao meu ouvido, ele me falou baixinho, só para eu ouvir, como se compartilhasse um segredo comigo:

- A vacina não dói. Eu já tomei, lembra?

Claro que não dói. Já viu algum deus reclamar de dor?

- Tô indo agora ao posto de saúde. Já avisei que chegaria mais tarde na escola. Por acaso você não está pensando que eu estou com medo de uma agulhinha, está?

 

O silêncio dele disse tudo.

 

Pense numa mulher frouxa para agulha! Daqui de casa até o posto eu fui tentando arranjar uma desculpa para não tomar a porcaria da vacina. Dá para ir andando, a distância não é grande.

O dia estava uma tristeza. Cinza e feio. Então, eu senti tonteira, calafrio, calor... mas sou nordestina, retada! Briguei mentalmente comigo mesmo, dando um carão daqueles. Disse que eu era forte, que já havia aguentado coisa pior e uma agulhinha não iria me assustar. E depois eu era mulher, ora bolas! Se eu aguentava TPM, sangrar todo mês e ainda ter cólicas, a vacina seria balela. Continuei andando. Acredita que a discussão mental prosseguiu até o posto? E quando eu vi a fila quilométrica? A minha eu mental tratou logo de me dizer para ir amanhã cedinho, pois estaria vazio. Mas a Natasha real bateu o pé e seguiu em frente até o final da fila e lá estacionou.

Mas essa Natasha mental é abusada e até eu ser atendida, não é que ela queria me boicotar? Tantas justificativas ela arranjou... até quando me chamaram.

Aquelas atendentes tãooooooooooooooooooo educadas:

 

- Trouxe o cartão de vacinação? Quantos anos tem?

- Braço esquerdo.

 

Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!

 

A eu mental gritou! Graças a Deus que só eu pude ouvi-la, porque a safada fez um escândalo na minha cabeça!

 

O bom é que foi rápido. – O Pê tinha razão. Aliás, ele sempre tem. –  Enquanto a eu mental se esperneava, a atendente tãooooooooooooo educada já me tacava um algodão no braço.

 

Pense no alívio!

 

Que dia lindo! O sol brilhava potente naquele céu azul anil...

A eu mental, eu acho, está de mal comigo. Está calada e não deu um pio até agora.

 

E eu feliz e vacinada. E sem pagar mico na frente de ninguém! Nada mais de Timbuktu.

Peguei o celular...

- Pê? Vamos almoçar juntos hoje, meu “Pensador de Rodin”?

 

Só ouvi uma risada, que era música para os meus ouvidos e a resposta:

- Eu lhe disse que não doía...

 

Não, não doía... Ah, vida maravilhosa... 

Por Daise

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