Tom Stewart

Ele é meu dono

 

Eu sou um pássaro

Vivo na minha linda gaiola dourada

 

Eu tenho um dono

Ele cuida de mim

Tenho comida, atenção e segurança

 

Eu queria ser livre

Voar em busca do novo

Cantar minhas descobertas

Não me preocupar em fingir felicidade

 

Às vezes canto algo novo

Diferente do habitual

Mas meu dono não gosta

Prefere as velhas canções

 

Fico intimidado, receoso de mudar, de crescer

Tranco-me como uma concha

Fecho-me no meu ser

Calo a minha voz e tento cumprir o meu papel

Afinal, ele é meu dono

Ele cuida de mim...

 

Por Daise

 

Rick Gayle / Corbis

Do coração de uma mulher

 
A bem da verdade, não sou essa mulher fatal que você pensa que eu sou. Aquelas histórias de sedução foram todas inventadas e esse ar superior, de quem sabe lidar com a vida, é apenas autodefesa.

Aquelas frases filosóficas, foram só pra te impressionar, pra te passar essa ilusão de intelectual... na verdade eu ainda nem sei se acredito nos valores que me ensinaram, quanto mais em frases feitas e opiniões formadas!

Senta aí, vai! Deixa eu tirar os sapatos, desmanchar o penteado, retirar a maquiagem... quero te mostrar que assim de perto não sou tão bonita quanto pareço, por isso uso todos esses artifícios. É que no fundo tenho um medo terrível de que você me ache feia, de que você encontre em mim uma série de imperfeições.

Sabe, não quero mais usar essa máscara de mulher inatingível, de mulher forte com punhos de aço... No íntimo me sinto uma pequena ave indefesa, leve demais para enfrentar o vento, e, deseja ficar no aconchego do ninho e ser mimada até adormecer.

Olha pra mim, às vezes minha intimidade não tem brilho algum e você terá que me amar muito para suportar essa minha impotência.

Deixa eu tirar o casaco, tirar o cansaço... essa jornada dupla me deixa tão carente... A convicção de independência afetiva? É tudo balela! Eu queria mesmo era dividir a cama, a mesa, o banho... Queria dividir os sentimentos, os sonhos, as ilusões... um pedaço de torta, uma xícara de café, algum segredo...

Ah, eu tenho andado por aí, tenho sido tantas mulheres que não sou! Quantas vezes me inventei e até me convenci da minha identidade. Administrei minha liberdade. Tomei aviões, tomei whisky... troquei a lâmpada, abri sozinha o zíper do vestido... decidi o meu destino com tanta segurança! Mas não previ que na linha da minha vida estivesse demarcada uma paixão inesperada.

Agora, cá estou eu, trinta e poucos anos e toda atrapalhada, tentando um cruzar de pernas diferente, um olhar mais grave, um molhar de lábios sensual... mas não sei direito o que fazer para agradar.

Confesso que isso me cansa um pouco. Queria mesmo era falar de todos os meus medos, "dos seus medos?" você diria, como se eu nunca tivesse temido nada. Queria te falar das minhas marcas de infância, dos animais que tive, do meu primeiro dia de aula... queria falar dessas coisas mais elementares, e te levar na casa da minha mãe, te mostrar meu álbum de retrato (eu, me equilibrando nos primeiros passos), ah, queria te mostrar minha primeira bicicleta, com truques. Ela ainda existe! Queria te mostrar as árvores que eu plantei (como elas cresceram!) e todas essas coisas que são tão importantes pra mim e tão insignificantes aos outros.

Ah, você queria falar alguma coisa? Está bem! Antes, só mais uma coisinha: estou morrendo de medo que você saia desta cena antes de mim, que você saia à francesa desta história, e eu tenha que recolocar minha máscara e me reinventar, outra vez.

Lucilene Machado

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Em tempos de Dia da Mulher, este texto é bem interessante em mostrar a nossa fragilidade... Mas para que mesmo ter um dia só destinado à mulher? Machismo? Porque ainda somos tão diferenciadas no mercado de trabalho (a comemoração do Dia Internacional da Mulher começou para relembrar a grande greve feita pelas mulheres reivindicando melhores condições de trabalho e a maioria foi trancada na fábrica, a qual foi incendiada) que nos concedem um dia para aplacar essa desigualdade em relação aos homens?

Acredito eu que

TODO dia é dia da mulher, pois, por mais que tenham ocorrido mudanças (ínfimas), é ela que labuta em casa e fora de casa, cumprindo várias jornadas diárias, cuidando da família, do trabalho e dela própria. A mulher é uma heroína, pena que muitos não reconhecem esse desempenho que só ela é capaz de ter.

Vamos a luta, mas sem perder a ternura!

Daise

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