Contos

COISAS DE NATASHA...

 II

 

E aqui estou eu de novo em mais um ano letivo. Observei a minha sala de aula e encarei cada um dos meus alunos da quarta série.

Quem olha para essas trinta carinhas tão compenetradas imaginaria trinta anjinhos. Quem será o Gabriel? Este eu já fui avisada para me resguardar porque só o nome é de anjo... Sorri, tentando encontrar o "anjinho" em particular. Hum... seria aquele de óculos? Não, pois já se observa que é um capetinha... Os óculos têm um remendo na perna... Aquele gordinho? Não, ele já está olhando para a lancheira com um olhar guloso... Dei uma risadinha mental, seja lá o que for isso...

No minutinho que levei para chegar a essas conclusões, todos me aguardavam com rostos ansiosos, menos o garotinho lindo sentado lá no fundo sorrindo tranquilamente para mim... Ah, só poderia ser o meu "anjinho". Meu radar o detectou... Bem, Natasha, seja criativa na apresentação. Ganhe logo de cara a confiança desses seres de outro planeta!  

- Bom dia, crianças! - Dei o meu melhor sorriso. - Animados para mais um ano de aventura? 

- Aventura, "fessora"? Uma garotinha me perguntou - Pensei que a gente fosse estudar... 

- Oh, estudar para mim sempre foi uma aventura. Eu me vejo como uma desbravadora, conhecendo novos mares, novas terras... Cada livro que eu leio, aprendo coisas novas... 

- Pra mim você parece mais uma bruxa, com esse cabelão vermelho, saindo do próprio inferno!!! - Falou o capetinha lindo com ares de sabichão, se mostrando para a turma toda, a qual ria de mim. 

O lindinho lá do fundo só podia ser o Gabriel, testando-me desde já. 

- Que cabeça a minha! Esqueci de me apresentar! É isso que dá esquecer dos bons modos. Podemos ser confundidos com qualquer um. Até mesmo uma bruxa descabelada vindo das profundezas do inferno, não é mesmo crianças? - Rebati com um sorriso angelical no rosto. A turma riu e voltou os rostinhos para mim. - Bem, eu me chamo Natasha, sou a professora de vocês. Gosto de ler, caminhar na praia, ir ao cinema e tomar muito sorvete de chocolate! A-D-O-R-O chocolate! Mas, por favor, nada de trazerem chocolate para mim, pois estou tentando entrar em forma! Agora cada um de vocês vão se apresentar também, ok? Começaremos pelo fundão. Os últimos serão os primeiros. Anotem aí, este será o meu lema de hoje. Adoro lemas diários.

Bingo! E não é que o lindinho era mesmo o Gabriel? Meu instinto estava certo! Cuidado com ele Natasha! Mas depois que eu quebrei o gelo, a aula correu tranquilamente e até o Gabriel estava amansadinho. 

Sai da sala para o recreio com a cabeça nas nuvens, como de costume, sem me dar conta do que ocorria ao meu redor... Já disse que sou tremendamente avoada? Quando dei por mim, já era tarde. A muralha me trouxe a realidade. Que que é isso, meu Deus! Olhei para cima e mergulhei num azul piscina, que dragou a minha respiração, deixando-me tonta, com o coração na boca e pernas de gelatina! 

Jesus, Maria José! Quem é esse Deus grego? Esse Adônis mitológico perdido nessa escolinha, segurando-me para eu não cair, com o sorriso mais deslumbrante da face da terra??? 

O homem, não, homem é pouco, o macho mas perfeito de Terra estava me abraçando, despejando testosterona por todos os poros. Preciso cheirá-lo. Bem discretamente eu tenho que cheirar o cangote dele. Vou fazer de conta que estou desequilibrada e vou me segurar no pescoço dele... Dito e feito, ou pensado e executado! Que perfume!!!! Deus do céu, o que está havendo comigo? Que descontrole hormonal é esse? É a TPM. Oh, é a crise dos trinta e cinco!

- Tudo bem, moça? - O deus grego me perguntou com a voz rouca e uma ruga naquela testa perfeita. 

- Oh! - Acredita que foi a única coisa que essa desmiolada falou? As palavras não saiam da minha boca e eu só conseguia encará-lo, meio embasbacadamente, com os olhos esbugalhados, como se a Medusa tivesse me transformado em pedra. Natasha, Natasha, responda alguma coisa! 

- Nossa! Você é o "Pensador"de Rodin, ressuscitado do mundo das esculturas! - Jesus do céu! Tanta coisa para eu dizer e eu falei logo isso??? 

Ele apenas riu para mim, me colocou em pé, pois eu estava literalmente jogada nos braços dele, ajeitou o meu cabelo, colocando uma mecha atrás da minha orelha e  direcionando para mim aquela imensidão anil que eram os seus olhos, disse: 

- E você é a minha imagem de uma Valquíria vingadora! 

- Oh! - voltei aos monossílabos. 

- Bem, eu realmente tenho que ir! - Falou a criatura. - Ah, nada de bronze (numa alusão à escultura de Rodin). Só carne mesmo! Vejo você por aí! E se afastou, meio de costas, meio correndo, sorrindo para mim. 

Como entrou em minha vida, o Deus grego saiu: num piscar de olhos! 

Gente, o que foi isso? Eu, uma Valquíria? Rapidamente busquei na minha memória a definição de Valquírias... Não seriam dinvidades nórdicas, meio Barbie-girl? Oh, de Barbie-girl eu não tenho nada. De bruxa descabelada vindo das profundezas do inferno para uma Valquíria vingadora, são dois extremos diametralmente opostos. Gostei da Valquíria vingadora. Suspirei! 

Saia vermelha de borracha... Salto quinze...

Saia vermelha de borracha... Salto quinze...

Saia vermelha de borracha... Salto quinze... Por que não?

Pronto, vou levar o "pensador" para o meu mundo da lua. Será que ele gosta de queijo? Me peguei rindo mentalmente de novo! Deixa eu comer alguma coisa antes que o recreio acabe! 

E lá fui eu para a sala dos professores. Podia apostar que o meu andar tinha um leve requebrar... Me sentia poderosa! Aliás, a Valquíria dele! Gargalhei na mente e segui em frente! A vida é uma caixinha de surpresas.

By Daise

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Obs.: Aviso aos navegantes que a atualização do meu blog é semanal. Gostaria de ter mais tempo para ser diariamente, mas tenho que contentar com os finais de semana! Grande abraço a todos.

Contos

 

 

Joerq Steffens / Corbis

 

COISAS DE NATASHA...

 I

Meu nome é Natasha. Nome exótico para uma pessoa tão sem graça como eu. Acho que a minha mãe tinha grandes expectativas quanto a mim. Natasha lembra espiãs russas, lindíssimas, vivendo uma vida de aventura, senhoras de si mesmas.

Que decepção! Cá estou eu, uma solteirona, sem glamour algum e a única aventura que enfrento é o desafio de encarar quarenta alunos da quarta série do ensino fundamental todo dia, durante o período escolar. Nossa Senhora! Só de pensar que mais um ano está para começar já começo a suar frio! Ter que representar... Eu deveria ter feito teatro, ter sido artista. Pelo menos ganharia para fazer aquilo que sei fazer de melhor: representar. A minha vida é um palco. Finjo ser quem não sou.

E quem sou eu mesmo???

Meu Deus, deve ser a proximidade do meu aniversário que está me deixando tão pensativa... ou a TPM! Nem quero pensar nisso!

Por que mesmo eu pensei no meu nome? Ah, a música do Capital Inicial na rádio. Nunca tinha ouvido...

"Tem dezessete anos e fugiu de casa
Às sete horas na manhã no dia errado
Levou na bolsa umas mentiras pra contar
Deixou pra trás os pais e o namorado

Um passo sem pensar
Um outro dia, um outro lugar

Pelo caminho, garrafas e cigarros
Sem amanhã, por diversão, roubava carros
Era Ana Paula, agora é Natasha
Usa salto quinze e saia de borracha [...]"

 

Nunca arrisquei. Nunca usei salto quinze e saia de borracha, nem pensar! Sempre fui certinha. E aqui estou eu, escutando uma música que me fez repensar a minha vida, aliás a peça que é a minha vida. O meu fingimento.

Droga, nunca tinha parado para analisar a minha medíocre existência. E agora, uma mera música na FM me fez ficar com essa cara de tacho, sentada no meu velho e patético sofá olhando para o nada através da janela do meu apartamento...

Trinta e cinco anos. Vou fazer trinta e cinco anos e o que eu fiz da minha vida? Sou feliz? NÃO! Jesus, só agora percebo o quão infeliz eu sou! Não tenho ninguém! Nem amigos, nem namorado, nem família. Só colegas de trabalho. Quando foi que me isolei da minha vida? Quando foi que me perdi para mim mesma? Quando foi que parei de viver e passei a apenas existir?

Oh, e essa música martelando na minha cabeça?!

Largar tudo? Recomeçar? Não tenho essa coragem toda...

Olha, Natasha, você não tem tempo para essas elucubrações. - Uma vozinha me alertou dentro da minha cabeça.

Levantei e tratei de me preparar para mais um ano de aula. Tomar um banho, trocar de roupa, colocar um sorriso na cara e começar tudo de novo. Então é assim que pensa o relógio... Tudo na mesma rotina... Coisa estranha pensar em relógio agora. Tô maluca mesmo. Sempre fui e agora tenho consciência disso!

Me peguei sorrindo para o espelho enquanto dava um trato na minha cabeleira meio avermelhada que caia pelas minhas costas. Taí uma coisa que sempre adorei em mim. O meu cabelo. Ele me faz sentir que ainda existe vida em mim. Oh, ainda resta uma salvação para a minha pessoa! Ri novamente de mim mesma. No palco da minha vida, eu sou uma personagem que não passa despercebida com essa cabeleira toda... Gargalhei sozinha no meu pequeno apartamento. Peguei a bolsa, alguns livros e sai para mais um ato!

 

By Daise

 

 

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